quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Desabafo...

(Texto de Mariana Souza, vale a pena ler e publicar! http://organizacaojovensespiritas.ning.com/forum/topics/desabafo-1 )

Meu nome é Mariana, tenho 18 anos e quero desabafar !Hoje só faz um mês da catástrofe climática que ocorreu na minha cidade, Nova Friburgo, serra do Rio de Janeiro, e em meus ouvidos ainda ecoam o ruído initerrupto das sirenes e helicópteros, só me fazendo lembrar que a dor ainda está presente, e que as feridas abertas nos morros sangram nos nossos corações. Eu participei disso tudo, em minha casa, e com a minha família nada aconteceu, mas aqui, ninguém ficou livre.Foi uma madrugada sem dormir, a falta de luz, pela janela a luz de relâmpagos revelava uma rua alagada, minha casa tremeu, na outra rua uma barreira caia ao lado de um prédio, meu irmão estava lá, conseguiu sair antes , pois teve um pressentimento.No rádio, pessoas gritavam socorro ''o morro está descendo'' , ''a água já chegou no segundo andar'', ''me ajudem estou em cima do telhado''.O dia amanheceu, no centro da cidade um forte estrondo é ouvido, surge uma gigantesca nuvem de poeira, não era encosta, não haviam falhas na topografia, nem tampouco casas em local de risco, é mata nativa, reserva natural, se ali está desabando, então todo o resto já terá caido!Era a rua do meu colégio..O pensamento se volta para os amigos que ali residiam, nomes, rostos, corremos para o telefone, mudo.Chovia forte, eu não queria sair de casa, mas era preciso ir lá ver...Havia lama e destruição por todos os lados, pessoas chorando, corpos passando em macas o tempo todo, bombeiros perguntando se alguém tem experiência em primeiros socorros ou reanimação, é dificil saber qual a melhor forma de ajudar quando todos precisam de ajuda, eu só conseguia ficar paralisada.Amigos de infãncia, estão debaixo de uma montanha de lama e escombros, onde antes haviam belas casas tradicionais.Pessoas buscavam lugares elevados, cachorros nadavam aos seus lados.Havia pânico e informações desencontradas por todos os cantos ''a igreja de Santo Antonio está destruída'', '' o teleférico desceu todo'' ,'' tal bairro não existe mais'','' estamos ilhados'','' fulano de tal morreu''.Deviam estar tentando falar com a gente, meu pai de SP veio assim que a estrada abriu, não havia como tranquilizar amigos e parentes, não tinha como ter noticias de ninguém, voltando para casa a comida na geladeira ameaçava estragar, era preciso economizar, haviam pessoas presas em elevadores, a luz não voltaria a menos de dois dias, a subestação foi afetada, postes cairam e haviam fios de alta tensão sobre os escombros, onde também havia vazamento de gás.O comércio fechado, hospitais isolados e destruídos, não havia gasolina nos postos, a bateria do celular ameaçava acabar..Nos reencontros entre amigos, havia silêncio,não cabia perguntar se está tudo bem.Lanternas e velas se esgotavam apesar do racionamento, já era noite...uma noite que se arrastava no medo que voltasse a chover.Amanhecendo ainda haviam parentes que não se afastavam dos montes de escombros, passaram a noite por lá. Não existiam ônibus circulando, pessoas caminhavam dias inteiros para terem noticias de alguém, meu namorado veio subindo e descendo montanhas do bairro em que mora, para dar noticias de vida, e levar água para casa, e quando ele chegou, seu abraço me confortou.. eu não precisava de mais nada... choro quando me lembro!O dinheirto era curto, caixas eletronicos sem funcionar, filas se formavam em pequenos estabelecimentos que se atreviam a funcionar com entrada controlada de pessoas, havia medo de saques.Medo, pavor, tomava conta de mim '' há necessidade disso?'' A presidente está na nossa rua, os helicópteros não param '' a coisa deve ter sido ainda maior do que parece''- pensamos, ainda sem luz não tinhamos tanta noção.A cidade se enchia de bombeiros, policiais, homens do BOPE, guarda nacional, exército. Na praça se erguia o hospital de campanha, no Instituto de Educação um IML era improvisado.De outro lado, a esperança, caminhões com donativos chegavam, um após o outro, enquanto surgiam pessoas de todos os cantos dispostas a ajudar.Depois de uns dias, os telefones começavam a tocar timidamente, do outro lado da linha, vozes amigas choravam de alivio a cada ''alô''.O cheiro dos corpos já em decomposição, tomava conta de tudo.Boas noticias surgiam de vez em quando, algumas pessoas eram resgatadas com vida, eu me arrependo de não ter participado dos trabalhos voluntários que consolavam e renovavam, e que davam uma sensação inigualável de servir e ser util, mas me admirava ver pessoas de fora servindo tanto ou mais que nós, os interessados.Eu não conseguiu raciocinar, não ligava uma coisa na outra, mas sabia que tinha que continuar minha vida, por algum motivo, era preciso trabalhar, honrar os que se foram e os que estavam ali.Hoje faz um mês, já está tudo bem? Não sei, onde estamos o assunto é um só '' acharam um braço não sei onde'', ''fulano de tal perdeu tudo''.Estão colocando os escombros e a terra, no meio da cidade, onde fizeram um aterro para tais, perto do rio, ou seja, para lá escorrer todo o chorume, e poluir cada vez mais. Faz um mês que a vida me deu uma página em branco, é preciso renascer, tornar-se uma pessoa melhor, menos alienada, abandonar o superficial e voltar os olhos ao essencial, é preciso ajudar quem precisa, doar o que se tem...é preciso brotar vida verdadeira desta mesma lama adubada por tantos amigos inesquecíveis que por lá pereceram.Hoje aqui, os dias são bonitos apesar da poeira..Tenho esperança que tudo voltará ao normal em breve.

Um comentário:

  1. Como sempre muito humana e sensível, não poderia esperar outro gênero de vc.
    Agora, quanto a causa da catástrofe os motivos são múltiplos. Desde políticos, históricos a ambientais. Mas independente do que levou a esse resultado devemos provar nossa humanidade ajudando nossos irmãos humanos.
    Grande Abraço.

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